Rede instalada não é catálogo instalado

Canal e pós-venda

Rede instalada não é catálogo instalado

Vender 100 mil carros é um projeto de 12 meses. Sustentar 100 mil carros rodando é um projeto de 10 anos.

Vender 100 mil carros é um projeto de 12 meses. Sustentar 100 mil carros rodando é um projeto de 10 anos.

O Brasil está confundindo as duas coisas.

Ontem, 16/09/2026, a Renault Geely do Brasil anunciou o início da produção do Geely EX5 no Complexo Industrial Ayrton Senna, em São José dos Pinhais. O EX2 elétrico vem em dezembro. A Geely tem 26,4% da Renault do Brasil desde novembro de 2025, e o Estadão publicou na sequência que a joint venture pode assumir também Zeekr e Lynk & Co. Na segunda, dia 14/09/2026, a AutoIndústria já tratava como fato a falta de peça de reposição nas aplicações chinesas.

A leitura fácil é que o pós-venda chinês está resolvido, porque a marca passa a entrar por dentro de uma estrutura pronta.

Resolve metade. A metade barata.

Sustentar frota rodando tem seis pernas:

  • Armazém com política de estoque por curva
  • Cobertura regional com nível de serviço combinado
  • Previsão de demanda por aplicação
  • Catálogo com a identificação certa
  • Técnico formado
  • Engenharia de garantia

Estrutura instalada encurta as duas primeiras. Não encurta as outras quatro. Ferramental, fornecedor homologado, identificação de aplicação e previsão de demanda são específicos de cada produto. Nada disso vem junto com a placa na fachada.

Tem ainda um problema de relógio que pega todo mundo, inclusive a indústria nacional de autopeças.

Demanda de reposição não nasce quando o carro é vendido. Nasce quando a frota sai da garantia. Ou seja, o número que justifica abrir uma linha nova só aparece depois que a janela boa já passou. Esperar o dado é a forma mais segura de chegar atrasado.

Enquanto isso a conta corre em quatro lugares que ninguém junta.

Veículo parado. Frete aéreo virando rotina. Pós-venda escapando para o independente. Valor de revenda caindo.

Nenhum dos quatro aparece no relatório de ruptura.

Respondi pela operação nacional de peças de reposição da Renault no Brasil, 30 mil itens e 230 fornecedores entre Brasil, Mercosul, França e Japão, e participei da integração dos sistemas de peças com a Aliança no Japão. De lá para cá mudou muita coisa. Isso não mudou.

Estrutura instalada resolve armazém e cobertura. Profundidade de catálogo não se herda, se constrói, e leva anos.

Nota do autorUm detalhe da foto, para quem reparou. É um Datsun Fairlady, quase sessenta anos, numa oficina japonesa com a prateleira cheia atrás. Ele ainda tem peça não porque a montadora foi generosa. Tem peça porque a aplicação virou padrão, a frota durou e o mercado independente achou que valia a pena abrir linha. É isso que decide se um carro envelhece bem. Não é o lançamento.
Fontes. Comunicado Renault Geely do Brasil (16/09), Estadão, AutoIndústria (14/09).
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Publicado originalmente no LinkedIn em 17 de setembro de 2026
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Paulo Turibio

Quando o tempo é o recurso mais escasso.

Uma conversa de trinta minutos costuma bastar para saber se o caso é esse.

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